Adotando
a natureza típica da terra, o pintor integrou-se suavemente
ao candomblé, a religião dos negros iorubás, fazendo-se
filho de oxóssi e presidente do conselho dos obás no
terreiro ilê axé
opô afonjá, da mãe Stella.
Acima de tudo, no entanto, tinha o título de Obá de xangô,
o posto mais alto dado pelo candomblé, seu maior orgulho.
Alto, elegante e magro, envolto em paletós de tweed e foulard
de renda negra no pescoço, sempre que a temperatura permitia,
Hector Julio Paride Bernabó era argentino de nascimento, italiano
de formação, carioca quando se tornou brasileiro e cidadão
do mundo com seus murais nos aeroportos de Nova York e Londres.
Quando morreu do coração, durante uma sessão no
terreiro de candomblé Ilê Axê Opô Afonjá,
em salvador, ele já era tão baiano quanto outro estrangeiro,
o etnólogo francês Pierre
verger, havia sido em vida. Carybé, como era conhecido,
tinha 86 anos, estava terminando novas telas e não podia mais
subir escadas, proibido pelo seu médico. Ainda assim, insistia
em continuar produzindo.
Pintor de recursos limitados, mas um desenhista brilhante, pertence à
mais depurada crônica visual da bahia, que tanto pode ser vista
nos desenhos que criou para os livros de Jorge Amado quanto na vasta
galeria de tipos de deuses do candomblé.
Amante da vida, carybé era tocador de pandeiro, bom dançarino
e contador de histórias. Acima de tudo, tinha um título
de Obá
de Xangô, o posto mais alto dado pelo candomblé, seu maior
orgulho.

"sou amoroso e devoto da religiosidade afro-brasileira, de seus
deuses modestos e humanos, que hoje se defrontam com estes deuses contemporâneos,
terríveis e vorazes, que são a tecnologia e a ciência",
dizia.
Segundo o amigo, o escritor Jorge Amado, Carybé
foi como um observador de dentro, envolvido com a religião,
que ele se dispôs a retratar. "outros podem reunir dados
frios e secos, violentar o segredo com as máquinas fotográficas
e, com os gravadores e fazer em torno dele maior ou menor sensasionalismo,
a serviço dos racismos diversos, mas apenas carybé e
ninguém mais poderia preservar os valores da religião
da bahia".
Nancy, a argentina nancy, sua esposa durante 50 anos, com quem teve
dois filhos, o artista plástico Ramiro e a bióloga Solange
costumava contar que o marido era um homem de tanta fé que jamais
levava papel ou lápis para as cerimônias.
Certamente por isso, as cenas do candomblé ocupam boa parte
da vasta produção deixada por Carybé. A porção
mais grandiosa de seu trabalho é justamente o desenho, a aquarela
e o nanquim. De maneira nervosa e moderna, com poucos golpes de pincel,
ele era capaz de resumir a forma de baianas prostradas de joelhos como
magníficos círculos coloridos.
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